Cenários de Ensino/Investigação em Educação Matemática, Leitura, Escrita e Literatura

ISBN: 978-65-5869-150-1 [Impresso]

eISBN: 978-65-5869-151-8 [Digital]

Apresentação

Tenho um livro sobre águas e meninos.

Gostei mais de um menino

que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira

era o mesmo que roubar um vento e

sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo

que catar espinhos na água.

O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.

Quis montar os alicerces

de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino

gostava mais do vazio, do que do cheio.

Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino

que era cismado e esquisito,

porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que

escrever seria o mesmo

que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu

que era capaz de ser noviça,

monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.

Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.

E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.

Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!

Você vai carregar água na peneira a vida toda.

e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

Você vai encher os vazios

com as suas peraltagens,

(Do livro “Exercícios de ser criança”, de Manoel de

Barros, publicado em 1999).

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Tomamos emprestado os escritos de Manoel de Barros, poeta mato-grossense nascido em Cuiabá-MT, em 1916, para abrir a seção de apresentação desta coletânea que propõe falar sobre “água na peneira” a partir das “peraltagens” dos autores no campo da Educação Matemática, da Leitura, da Escrita e da Literatura. Com esta obra fazemos um exercício de escrita, de registro e, ao mesmo tempo, de memória das ações que compõem o tripé universitário Ensino-Pesquisa-Extensão, o qual sustenta a autonomia do trabalho docente no Ensino Superior. Assim, “Carregar água na peneira” a partir da escrita e reflexão permanente dos processos formativos e educacionais, os quais temos passado na última década, particularmente, é o contributo deste livro.

Como organizadores, buscamos reunir outros/as meninos/as que, assim como nós, também seguem a “carregar água na peneira a vida toda”, não só pelo desejo tremendo de fazer ecoar no vazio o pensamento e empoderamento que a escrita e a leitura dão nas mais diversas áreas do conhecimento, mas também, principalmente, pelo fato de que estamos, no esforço coletivo aqui reunido, a tentar fazer com que, assim como o menino que carregava água na peneira, “pedras virarem flores”.

No escopo das “peraltagens” acadêmicas temos trabalhado duro, dia a dia, em um momento histórico-político-social que insiste em ver a Universidade e a figura dos professores, de modo geral, como pessoas que “roubam vento e saem correndo…”. À primeira vista, pensar da mesma forma que a mãe assustada e observadora do menino que carregava água na peneira, com o olhar desacreditado e avaliativo, parece nos levar por estradas sem fim. Contudo, quando se “carrega água na peneira”, “rouba ventos”, “cata espinhos na água” e se “cria peixes no bolso”, rompe-se com estereótipos, ultrapassando as fronteiras do conhecimento para “encher os vazios” daqueles que são seres inconclusos (alunos e professores), tal como nos dizia Paulo Freire (1996, p. 24): “É na inconclusão do ser, que sabe como tal, que se funda a educação como processo permanente”.

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Sabemos que nos (des)propósitos da ação colaborativa no campo das Ciências Humanas reside a possibilidade de constituição de um processo educacional emancipador. Reconhecer a educação como “processo permanente”, o qual direciona para completude (ou tentativa de completar) nossos “vazios”, seja com águas carregadas em peneiras, ventos roubados por crianças sonhadoras, espinhos que se viu na água ou ainda por peixes criados nos bolsos, queremos, sobretudo, enaltecer a capacidade criadora/sonhadora/transformadora que a escrita representa na sociedade contemporânea. Escrita aqui entendida não apenas como processo de apropriação de códigos linguísticos, semânticos e numéricos, mas sim, de leitura de mundo, uma vez que esta precede a leitura da palavra (FREIRE, 1992).

Acreditamos que uma coletânea como a que aqui é apresentada, significa consolidar parcerias interinstitucionais e demonstrar, na prática, o significativo papel que a Universidade desempenha na vida das pessoas, contribuindo com o avanço dos setores sociais nas mais diversas áreas do conhecimento, sob o pilar ético, estético e de compromisso com a cidadania.

Nesta obra, localizamos capítulos de autoria de professores da Educação Básica e professores universitários, os quais têm um denominador comum: “carregam água em suas peneiras”. Buscam, cotidianamente, apesar dos desafios vividos na pele nos últimos anos, preencher os vazios do ser de nossas crianças e adultos. Sujeitos que encontramos na caminhada do processo educativo, os quais somam conosco o poder de “usar as palavras” no ato de escrever para sistematizar “peraltagens” da construção do conhecimento nas áreas-temas debatidos em seus textos. Assim, ao reunir elementos constitutivos de ações desenvolvidas na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (SED-SP); Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS e Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP, temos, nesta coletânea, a capacidade de “modificar a tarde botando uma chuva nela” ou ainda melhor “botando um amanhecer ensolarado na noite chuvosa”.

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Com a presente obra queremos somar, contribuir, avançar juntos como “poetas” na vida daqueles e daquelas que passaram e ainda passarão por nossas Universidades. Vamos “preencher os vazios”, colorir vidas e realizar ainda mais sonhos!

Klinger Teodoro Ciríaco – Departamento de Teorias e Práticas Pedagógicas – DTPP-CECH-UFSCar Vivianny Bessão de Assis – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS

Os organizadores, Janeiro de 2021.

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