Agir fora da Caixa

ISBN 978-65-5869-167-9 [Impresso]

eISBN: 978-65-5869-179-2 [Ebook]

Autor:

RICARDO FERNANDES BRAZ

Em 1940, uma menina de 9 anos, natural da cidade de Orleans, que vendia roscas que a mãe fazia para o sustento da família, buscava roupas nas casas dos ricos para a mãe lavar, ajudava a estender, recolhia, ajudava a dobrar e a entregar, falou para seus pais: Não quero ter uma vida de lavar, passar e cozinhar. Quero estudar para ser professora. Os pais, um senhor de 60 anos e uma senhora de 45 anos, aceitaram o pedido da filha caçula e a encaminharam para a casa de uma filha, já casada, na cidade de Jaguaruna, para fazer o então Normal Regional. Então o pai faleceu em 1943 e, após a formatura, em 1945, ela voltou para casa da mãe.

Seu primeiro emprego seria lecionar numa comunidade muito distante, que precisava ir de charrete ou a cavalo. Para não deixar a mãe sozinha, ela abdicou do sonho e, com os conhecimentos do Normal Regional, facilmente conseguiu trabalho.

Com uma letra exemplar, passou a ser caixa e preencher as costaneiras, livros de registro contábil da época que indicavam o valor e as mercadorias vendidas, com qualidade pela letra e precisão na matemática. Levava os livros para casa e os preenchia durante à noite. Tal esmero e capricho comoveram o gerente da então Casas Pernambucanas, que ofereceu um aumento de salário para o dobro.

Em 1959, aos 26 anos casou-se. No primeiro papel de esposa, estava passando as roupas do marido e este olhando. Ao terminar de passá-las, o marido disse: – Meu amor, deixa que eu passo minhas roupas. E ela perguntou: Por quê? Não ficou bom? Ele respondeu: Ficou, só que o vinco da calça é na frente. E nunca mais passou roupas.

Na década de 80, trabalhando como balconista em uma loja de roupas e tecidos, o patrão, seu primeiro gerente, fazia um trato com as balconistas. Quem vender com nota fiscal, ganha 2% de comissão e quem vender sem nota fiscal, na época a famosa nota fria, ganha 4% de comissão. Assim, o gerente se tornou patrão de um negócio próprio. A balconista, que estudou para não ser dona de casa, guardava os blocos de notas frias, e na primeira injustiça pessoal, ela levaria o bloco para a receita federal. Ela nunca conseguiu terminar a construção de sua casa.

Nas primeiras décadas do século XXI, aposentada, um filho dela contraiu tuberculose. No trabalho não queriam dar-lhe o direito ao afastamento para tratamento de saúde. Ela pegou o registro de trabalho e foi ao INSS; e identificaram que a empresa recolhia o FGTS dos funcionários, mas sonegava da receita federal. Conseguiu o afastamento do filho, organizou o fisco e conseguiu curar o filho.

A menina de 9 anos é minha mãe. Seu pai de 63 anos e a mãe de 45, meus avós. O homem macho, que brigava em bar, e cozinhava e passava roupas em casa, meu pai.

Lavar, cozinhar e passar roupas, na década de 50, para meu pai e minha mãe era Agir fora da Caixa. Ele sabia fazer, ela não.

Casar-se aos 26 e 27 anos, na década de 50, era Agir fora da Caixa, pois a maioria casava e constituía família muito cedo como objetivo e sentido de vida.

Agir fora da Caixa é um projeto de sociedade que está se construindo há muito tempo, gradativamente, e o conhecimento e o diálogo se mostra importante entre os que vivem o processo de Evolução da Espécie. Os aptos para o bem comum um dia atingirão seu lugar.

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