A báscula do desejo

Caio Carniel

Lá está ela, parada frente a basculante, olhado paisagens, pessoas e acontecimentos que estão limitados pela pequena fresta. O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar – pensou. Lembrou que essas palavras que a invadiam não eram dela; as palavras passaram pela boca da professora de literatura, porque alguém um dia escrevera e, então, consideraram importante repetir; pois quem sabe assim, alguém poderia fazer alguma coisa com isso. Mas se já se repetiu tantas vezes, teria algo a se fazer? – questionou-se ainda fixando o seu olhar sobre paisagens, pessoas e acontecimentos. A TV ligada anunciava as notícias do dia: “O país atinge hoje 18.850 mortes!” Porém, o olhar se mantinha fixo: paisagens, pessoas e acontecimentos… Tudo parece em miniatura daqui de cima! – foram as palavras que sobrevoou a sua cabeça, enquanto o olhar permanecia controlando tudo – pelo menos, era assim que ela gostava de idealizar. Já se idealizou de tantas formas que nem sabe questionar mais quais formas realmente desejara. Pareciam desejos – pensou.

Tomada por uma sensação estranha, perdeu-se o desejo de olhar: na paisagem houve mudanças, nas pessoas instabilidade e nos acontecimentos… bem! Eles simplesmente não acontecem. E a TV novamente: “Presidente envolvido em novos escândalos de tentar interferir nas investigações da Polícia Federal”. Não mais distraída pela imagem idealizada na basculante, ela olha para a TV, mas ainda não consegue ouvir: Isso não é a minha realidade! – pensou. E decidiu

que era seu momento egoísta: cuidar de si, malhar, comer, estudar fotografia… Fazer algo que era de sua verdadeira realidade.

Abriu o livro: Capítulo 08. Técnicas Fotográficas… Isso sim! Regozijou-se com o encontro da sua realidade, e colocou-se a ler. Em suas leituras descobriu que na Primeira Guerra Mundial, os russos inventaram um método de fotografia que produziam miniaturas da cidade com a finalidade de criar uma maquete mais real possível para decidir as melhores estratégias de ataque. O nome da técnica: Tilt and Shift. Muito letrada, consulta o seu dicionário inglês-inglês e descobre que tilt é giro e shift é o ato de se movimentar. E repara a tradução que o seu capítulo oito traz: Giro e Bascula. Ela riu. Então, decide que já tinha vivido demais a sua realidade, era hora de dormir. Revisitou o seu celular pela última vez e descobre por um grupo de amigos: “Presidente participa, mais uma vez, de atos anti-democráticos”. Tudo isso é muito desnecessário – pensou. Colocou em qualquer desenho que passava na TV, passava Hotel Transilvânia. E finalmente, se deu por vencida e caiu no sono. Nesses últimos dias seus sonhos eram frequentes. Apesar de quase não se lembrar deles depois de sonhado, sabia que sonhava e a mesma sensação estranha tomada frente a basculante, era a que visitava ao acordar. Nessa noite, não fugindo do “normal” dos últimos dias, ela sonhou: Estava em Barcelona passeando pelas ruas – que estavam vazias. Ela se encontrava sozinha. De repente, um vulto aparece e ela sente algo invadir a sua pele. Sai correndo, e ao olhar ao espelho, encontra ali duas marcas. Quando olha de novo não está mais no espelho… Viu seu corpo modificar e quando percebeu estava sugando o sangue de todos a seu redor. Aqueles que não morriam acabavam tornando-se como ela. E foi isso que a fez acordar: encontrar uma outra dela sem um espelho. Acordou e

disse: “eu não acredito que sonhei com o Drácula!”.

Mas na vida não há tempo para pensar em sonhos. Acordou, fez seu café, fez a lista de suas atividades do dia, e se preparou para sua aula online. Como de costume, durante as aulas, deixa a TV ligada – porém, no modo mudo. Por sentir que aula estava chata, oscilava na aparição e o desaparecimento de sua câmera. Quando acendia seu cigarro, desligava a câmera – não gostaria que os outros vissem os seus hábitos. Às vezes, estava ali aparecendo, mas com o áudio silenciado, des-mutava a TV e deixava a vozes dos jornalistas falarem sobre aquelas catástrofes diárias. E durante as aulas transitava suas formas: muda, ausente, presente, falante… O que será que há lá fora? – pensou – Será a realidade que vejo ou será que a realidade que eu escuto? Pela janela não via as mortes, pela janela não via nada além de paisagens, pessoas e acontecimentos.

De repente, uma voz: “Carina, você consegue dar mais exemplos sobre as relações de complementariedades no eixo morte e não-vida dentro da obra que estamos estudando?”

Ela estava visível, porém muda. Ativa o som e diz:

“Professora, não seria a mesma coisa? A morte e a não-vida?”.

A professora ri, como se Carina não soubesse de nada da Teoria Semiótica de Greimas. E realmente, era apenas uma matéria complementar – Carina se matriculou, apenas, porque sua amiga havia insistido muito para fazer juntas. E um pensamento se repetiu – Parecia desejo! Decidiu enforcar a sua aula, apertou o botão que a colocava fora da realidade da sala de aula e voltou à janela… ou melhor dizendo, para a sua basculante. Ali, pelo menos dessa vez, não se fixava nas pessoas, mas em seus pensamentos. Lembrou do sonho… O drácula que não aparece, porém deixa a suas marcas. Enquanto isso, a sua TV brigava pelo espaço: “Vamos agora ver os números de casos no mundo todo…”. E por que será que eu não matava todo mundo no sonho? O que me fazia deixar alguns? “A Polícia do Rio de Janeiro atira em uma criança…”. Qual será a diferença entre morte e não-vida? “Sai hoje a decisão do STF…”. Carina, então gritou. Desligou a TV. Fechou a Janela. E pela primeira vez, por semanas nesse estado de completa indiferença, chorou.

Finalmente, Carina desejou algo.

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