A Manhã no Meio da Noite

Cleido Vasconcelos

No meio da noite eu chego na loja no começo da manhã
É uma loja de discos
O sol torna tudo amarelo E é meio da noite
Meu coração bate um pouco só
acelerado moderado pelo betabloqueador Logo abaixo dele
do coração
tem um buraco que o ar desce como água num ralo recém aberto
Nem dá pra ver pra que lado a água roda Mesmo porque é ar turbilhonar
E não água
E é meio da noite na manhã da loja de discos
Na prateleira tem um disco que eu lembro dele E bate o sol de leve nele
Na verdade, não é o sol
É uma luminosidade amarela indireta de uma luz que já bateu nas pastilhas dos prédios e agora
é sua, ou seja, do disco lindo na prateleira
É meio da noite e tem aquele fluxo de ar parecido com água
no esgoto da boca do ralo que vai dar no meu estômago
Um cano que aperta conforme passa o ar que eu respiro
No meio da noite No meio da manhã
Bate coração meio acelerado, mas moderado
A Regina que trabalhava na loja morreu tempos depois de câncer de mama.
A Solange que trabalhava na loja morreu muito mais tempo depois de câncer.
O disco em que o sol de pastilhas do sol bate é o the wall Compro e vou pra casa. Não gosto e devolvo
Mas agora no meio da noite este meio da manhã é bom
No meio da noite-pandemia-do-agora, a luz amarelinha da manhã do passado criou um facho de sol
.

E o que era escuridão irracional teve um foco claro de luz. Eu tive esse sonho no meio da quarentena. Logo depois, assisti a Rita von Hunty falar sobre slam e poesia no canal dela. E o que ela disse sobre o papel da arte, ficou batendo forte dentro de mim. Como um facho de luz de poesia dentro de minha escuridão de arte na quarentena. Algo sobre a capacidade da poesia ser uma resposta rápida ao que nos está acontecendo. Uma forma de reação urgente da arte ao aqui e agora. Uma selfie de celular do momento. Na verdade, nem sei se foi o que ela disse, mas foi o que entendi.

Depois de semanas, inerte, só vendo netflix, mesmo achando que, como artista, deveria criar alguma coisa nesses tempos, eu  escutei isso sobre a poesia e escrevi um poema, depois de muito tempo sem escrever. Um poema que fala sobre minha adolescência nesta loja de discos de vinil do centro da minha cidade. Tenhos sonhos recorrentes com esta época e a sua loja de discos. Tenho vontade de chorar, só de escrever sobre isso.

Mas, antes do poema, eu sonhei sobre esta noite em que um pedaço da manhã, com sua luz de sol amarela, invadia a noite, na loja fechada e sem vida, em que eu estava. E era a luz do sol refletida pelas pastilhas dos prédios, que dava vida à loja fechada na noite. Não era a luz direta do astro que dava sentido às coisas, mas o reflexo dela nos prédios da cidade, literais (e simbólicas) construções humanas.

Por isso, sempre será a razão, encharcada de emoções, que vencerá a barbárie propostas pelas trevas. E se hoje estamos no meio de uma noite (quase) sem fim, só o sol das memórias e da poesia poderá nos salvar e nos guiar durante esta nossa travessia.