A vida em números: sentidos do discurso digital na Pandemia de Coronavírus

Cristiane Dias

No digital, a quantidade é estruturante. Tomarei essa afirmação de Orlandi (2009) como ponto de partida para apresentar dois movimentos de análise que se ligam e se atravessam pela discursividade do digital, mas de modos diferentes. No primeiro movimento vou trabalhar com os números como dados que invisibilizam o sujeito e, no segundo, vou trabalhar com os dados como números que dão visibilidade aos sujeitos. Em ambos os casos vou considerar dados quantitativos. Daí a noção de quantidade como estruturante.

Ainda no tocante aos dois movimentos de análise que aqui proponho, vou ancorar meu trabalho de leitura ou dispositivo teórico para o “reconhecimento da materialidade dos fatos” (ORLANDI, 1998, p. 79), na relação entre memória e arquivo, teorizada em duas noções: o arquivo com memória e a memória como arquivo.

Primeiro movimento: o Arquivo com Memória

A Pandemia de Coronavírus nos coloca em uma relação diária com os números. Todos os dias ouvimos pelo rádio, vemos na televisão, lemos nas redes sociais e acompanhamos em números, por meio de gráficos e mapas, a evolução dos casos de contaminados e dos mortos pela Covid-19. O cálculo da pandemia é devastador. A vida em números se esvai nas manchetes dos jornais, revistas, sites de notícias e em postagens diversas de redes sociais.

Nos primeiros dias da Pandemia, no Brasil, nos debatemos com o modelo matemático de crescimento exponencial, para entender os números, as curvas e seu achatamento de contaminação e, sobretudo, para convencer a população da extrema necessidade do distanciamento social.

Entre gráficos, formas e funções matemáticas, nos habituamos aos números e aos cálculos, seja para sobrevivermos, seja para contarmos os mortos. Mas se a matemática ajuda a contar os mortos ela diz pouco sobre os mortos que contam. E menos ainda sobre quem são os mortos que contam. São eles corpos que importam para o Estado? Para um sistema que preza por certos corpos e despreza outros, “doentes não apenas são um fardo para a sociedade como merecem ser punidos por sua irresponsabilidade” (MOROZOV, 2018, p. 91). A sociedade brasileira, pelas posições e ações do governo federal atual diante da Pandemia de Coronavírus, compactua com esse sistema.

De um outro modo, mas não descolado desse de contar os mortos, os números e cálculos já têm feito parte do nosso cotidiano há muito tempo. Textualizada pelos dados, nossa vida, nossos gostos, nossos itinerários, nossos hobbies, nossas postagens (quantas curtidas? quantos compartilhamentos? quantas

visualizações?), nossos amigos (quantos você tem no Facebook?), nossos discos e livros (e nada menos) tomam a forma de dados algoritmizados, cujos sentidos se produzem a partir de formações algorítmicas (FERRAGUT, 2018), pelas quais a ideologia da técnica trabalha para delimitar as fronteiras dos sentidos daquilo que pode e deve ser dito. Também aí trabalha a memória em suas distintas naturezas: a discursiva, a metálica e a digital.

Aqui já adentramos a região teórica da Análise de Discurso, a qual me filio para compreender o discurso. Nesta análise, vou refletir sobre os sentidos do discurso digital para a vida, o sujeito e a sociedade, tomando como objetos de análise, o poema “Inumeráveis”5, de Bráulio Bessa, a performance “Em situação de uma morte crônica”, de Bruna Lessa e o movimento de resistência: a 1ª parada do orgulho LGBT+ online do ano de 2020, na conjuntura da Pandemia de Coronavírus no Brasil, na qual os números significam no embate com o vivido, que, para além do cálculo, significa o incalculável, o inumerável.

Inumeráveis
Autor: Bráulio Bessa


Andre Cavalcante era professor
amigo de todos e pai do Pedrinho.
O Bruno Campelo seguiu seu caminho
Tornou-se enfermeiro por puro amor.
Já Carlos Antônio, era cobrador
Estava ansioso pra se aposentar.
A Diva Thereza amava tocar
Seu belo piano de forma eloquente
Se números frios não tocam a gente
Espero que nomes consigam tocar.


Elaine Cristina, grande paratleta
fez três faculdades e ganhou medalhas
Felipe Pedrosa vencia as batalhas
Dirigindo Uber em busca da meta.
Gastão Dias Junior, pessoa discreta
na pediatria escolheu se doar
Horácia Coutinho e seu dom de cuidar
De cada amigo e de cada parente.
Se números frios não tocam a gente
Espero que nomes consigam tocar.


Iramar Carneiro, heroi da estrada
foi caminhoneiro, ajudou o Brasil.
Joana Maria, bisavó gentil. E Katia Cilene uma mãe dedicada.
Lenita Maria, era muito animada
baiana de escola de samba a sambar
Margarida Veras amava ensinar
era professora bondosa e presente.
Se números frios não tocam a gente
Espero que nomes consigam tocar.


Norberto Eugênio era jogador
piloto, artista, multifuncional.
Olinda Menezes amava o natal.
Pasqual Stefano dentista, pintor
Curtia cinema, mais um sonhador
Que na pandemia parou de sonhar.
A vó da Camily não vai lhe abraçar
com Quitéria Melo não foi diferente.
Se números frios não tocam a gente
Espero que nomes consigam tocar.


Raimundo dos Santos, um homem guerreiro
O senhor dos rios, dos peixes também
Salvador José, baiano do bem
Bebia cerveja e era roqueiro.
Terezinha Maia sorria ligeiro
cuidava das plantas, cuidava do lar
Vanessa dos Santos era luz solar
mulher colorida e irreverente.
Se números frios não tocam a gente
Espero que nomes consigam tocar.

Wilma Bassetti vó especial
pra netos e filhos fazia banquete.
Yvonne Martins fazia um sorvete
Das mangas tiradas do pé no quintal
Zulmira de Sousa, esposa leal
falava com Deus, vivia a rezar.
O X da questão talvez seja amar
por isso não seja tão indiferente
Se números frios não tocam a gente
Espero que nomes consigam tocar.

Bráulio Bessa, tocado pelo Memorial Inumeráveis escreveu o poema de mesmo nome, Inumeráveis, dedicado às vítimas da Covid-19. Os versos se ancoram no refrão que se repete ao final de cada estrofe: “se números frios não tocam a gente, espero que nomes consigam tocar.” Essa repetição sustenta um pré- construído: o de que o aumento diário do número de mortos divulgado nas mídias brasileiras não sensibiliza a população. Isso porque os números são tomados em sua transparência lógico- matemática. Nesse sentido, cabe, aqui, discutirmos o funcionamento discursivo dos números. Para tanto, tendo esse poema como mote para análise, formulo a seguinte questão discursiva “como os números significam a vida e o sujeito na conjuntura da Pandemia de Coronavírus”?

Uma primeira observação que podemos fazer é que, por um lado, o anúncio diário do número de mortos pela covid-19, pelo acúmulo, produz uma espécie de de-singularização do sujeito. Afinal, temos 100 mil mortos, mas não sabemos nada sobre cada um dos 100 mil mortos. São apenas números? São sujeitos? Por outro lado, a relevância de se divulgar os números é grande, na medida em que, diante do real, ou seja, daquilo que não pode não ser assim, daquilo diante do que nada podemos, o sentido explode e se materializa em formas distintas de linguagem. A arte como linguagem, nesse sentido, é potente. Nessa contradição, cabe uma segunda observação, a de que o sujeito, uma vez tornado “dado”, um dado na estatística, é apenas um número, um corpo que não importa. Na medida, porém, em que se coloca esse sujeito na

história: “ela se chamava fulana, tinha tal idade, era assim e assado, gostava de x e y”, ele se torna um sujeito singular.

É muito importante atentarmos para esse processo de construção de uma narratividade6, na medida em que quando um número não tem corpo, nem rosto, nem nome, nem história, ou seja, não há construção discursiva do referente numérico, ele se torna um corpo que não importa. Quando um corpo se torna apenas um número entre outros tantos, ele se desumaniza e por essa razão, mesmo sua morte se torna banal e corriqueira.

Régine Robin (2016, p. 86), ao tratar dos acontecimentos sem narrativa, quando não interessam a ninguém, aqueles que ficam em caixas aguardando que algum historiador ou curioso “venha tirar os seres do anonimato e os fatos da submersão, para fazer a história daquilo que um dia aconteceu”, traz o exemplo de Geoges Perec, romancista e poeta francês:

Geoges Perec foi assombrado pelo aniquilamento, e toda a sua obra é marcada pelo desaparecimento de sua mãe em Auschwitz e pelo certificado de “desaparecimento” que ele recebeu em 1959. Sua mãe foi morta em 11 de fevereiro, data em que o comboio onde ela tinha sido encarcerada depois de sua detenção em Paris deixa Drancy. Mas quando então? Nos vagões selados com chumbo que partiam para Auschwitz? Imediatamente a sua chegada? Depois? Um cálculo macabro estabelecido pela administração francesa supõe que esses trens chegavam a Auschwitz entre três e cinco dias após sua partida, ou seja, Cyrla Schulewics teria chegado em 16 de fevereiro de 1943. Ora, o decreto oficial afirma que ela foi morta em 11 de fevereiro em Drancy. Portanto, a data e o lugar declarados no documento são falsos.
Desaparecimento, volatilização, ausência de rastros. O mais estranho e incômodo é o fato de que, quando não se presta atenção, esse desaparecimento não é notado, exceto pelos mais próximos. Parece que tudo retorna ao estado inicial, quase normal. (ROBIN, 2016, P. 86)

Esse estado de quase normal é o que vivemos todos, hoje, mesmo nos deparando diariamente com mais mil mortos, que se somam aos 100 mil, 112 mil, 115 mil e assim por diante vamos

construindo uma massa de anônimos, referentes numéricos sem nome, sem memória…

Figura 1: Reliquia.rum. Figura 2:- Reliquia-rum

O governo não quer nem contá-las no formato de números. Mas as notícias insistem. Ela foi a segunda de sua cidade, logo depois do pai. Soube da doença no dia em que ficou órfã. Morreu aos 43 anos em Rondonópolis. Mato Grosso.

Assim conta os mortos a narratividade do perfil do Instagram Reliquia.rum7, idealizada pela antropóloga Débora Diniz.

Ela se fez do mesmo na notícia. Sem doenças prévias, foi o número 10. Há insistência em torná-la número. Morreu aos 32 anos, em Piraí, Rio de Janeiro.

O Reliquia.rum é um relicário de uma epidemia no Brasil, como descreve o perfil. Em termos discursivos, trata-se de um modo de construção discursiva do referente numérico. No que diz respeito ao funcionamento discursivo da referência, Pêcheux (2011), aponta:

(…) a referência discursiva do objeto já é constituída em formações discursivas (técnicas, morais, políticas…) que combinam seus efeitos em efeitos de interdiscurso. Não haveria assim naturalidade “técnica” do balão livre ou da estrada de ferro, ou naturalidade “zoológica” da toupeira, que seria em seguida objeto de metáforas literárias ou políticas; a produção discursiva desses objetos “circularia” entre diferentes regiões discursivas, das quais nenhuma pode ser considerada originária. (PÊCHEUX, 2011, p. 158)

Assim, não há naturalidade técnica, nem moral e tampouco política dos números da Pandemia de Coronavírus no Brasil. Desse modo, pergunto: o que se tem produzido como formas discursivas dessa não naturalidade ou naturalização dos números? Qual é a construção discursiva desse referente numérico: 100.000?

Vídeo no Perfil do Instagram Marie Claire.

Tanto o Reliquia.rum de Débora Diniz quanto o enunciado da Marie-Claire “números não são apenas números”, e ainda o enunciado do poema de Bráulio Bessa “se números frios não tocam a gente, espero que nomes consigam tocar” denunciam o “desaparecimento de anônimos”, dando-lhes nome e história. Mais uma vez, recorro a Regine Robin:

O verdadeiro desaparecimento é aquele da massa anônima. O que se deixa depois de uma vida ‘normal’? Vestígios em um registro civil, as certidões de nascimento e de óbito (…) Um túmulo no cemitério, uma lápide e, se o tempo não os apagar, um nome, uma inscrição, datas (…) Esse desaparecimento, essa imersão dos anônimos no nada é o destino comum da humanidade. (ROBIN, 2016, p. 96)

Mas, no caso de uma Pandemia como essa que estamos vivendo, especialmente na conjuntura brasileira, lutar contra o desaparecimento é um gesto político. Dar vida aos desconhecidos, anônimos e esquecidos, contando suas histórias é resistir ao descaso do governo, do Estado brasileiro com as vítimas de sua própria política da morte (ou necropolítica).

Com isso, o enunciado “números não são apenas números”, aponta para as margens dos números, ou seja, os não-ditos, os silêncios, os silenciamentos. Como afirma Orlandi (1995) o dizer e o silenciamento são inseparáveis, portanto, dizer “números não são apenas números” significa também pelo pré-construído, algo que não está dito, mas está presente – um não-dito que sustenta esse dizer pelo seu reverso: “números são apenas números”. Coloca, portanto, em questão, um sentido dado. Algo que não está dito, mas que significa. Quanto aos silêncios que aí produzem sentidos, podemos apontar o silêncio do Estado como aquele que significa sua omissão perante 100.000 vidas perdidas.

Cabe trazer, na relação com esse significante ao revés: “números são apenas números”, a afirmação do Ministro interino da Saúde, Eduardo Pazzuelo: “não estou falando apenas de números”

“Não estou falando apenas de números, que serão muito positivos no final, quando colocarmos cálculos com relação à população brasileira e, infelizmente, às perdas. Estou falando do que fizemos para o combate à pandemia. O que nos entregamos, chegamos na ponta da linha”, disse o ministro interino.

Nesse dizer, o governo se filia a um discurso de negação da tragédia, buscando minimizar a vida frente à economia (saldo positivo). Ao dizer “não estou falando apenas de números” o ministro interino faz significar, por um trabalho da memória discursiva, “fala-se apenas de números, mas não é disto que estou falando”. As “perdas (115 mil mortos)” são apenas números. O saldo positivo não será a vida, mas a morte.

Na contramão desse discurso que minimiza a vida e a morte, o memorial colaborativo em homenagem às vítimas de

coronavírus, Inumeráveis, constrói um arquivo com memória ao formular uma existência em prosa aos mortos.

Página do Facebook do Memorial Inumeráveis

Nos vestígios de suas vidas, Inumeráveis escreve outra história, desorganizando a narrativa do governo brasileiro, para a qual os mortos são apenas números ou nem isso, já que são sujeitos que não contam, um fardo para a sociedade. Mas o memorial abre as caixas das vidas desses sujeitos, “dando-lhes nome e história”.

Lembremos que a Análise de Discurso não trabalha o texto como uma unidade fechada, embora, enquanto objeto de análise, considere essa unidade imaginária como aquela a partir da qual pode observar a textualização do discurso pelas suas margens. Aquilo que não está dito ali, mas significa. Nessa perspectiva, estou aqui tomando 100.000 como texto, para observar a partir dele a discursividade da Pandemia no Brasil, na articulação entre

linguagem e tecnologia, cujos efeitos na relação do sujeito com os sentidos, portanto, na relação do sujeito com as formas de textualização do discurso, são profundos.

Para a AD, o texto é matéria significante onde se exerce a relação do sujeito com os sentidos, em distintos processos de significação, em distintas formas de linguagem. O texto é, como mostra Orlandi (1998) em seus trabalhos, uma “peça de linguagem”.

Tomemos, pois, 100.000 como uma peça de linguagem, cuja forma discursiva que estamos aqui analisando é a da arte.

Performance “Em situação de uma morte crônica”

Fonte: Instagran (Bruna Lessa) – http://www.instagram.com/p/CEIEr2An0q_/?hl=pt-br

A performance de Bruna Lessa, produtora audiovisual, questiona o sentido dos números: “As vidas importam. Essas pessoas não são números, essas pessoas são pessoas, essas pessoas têm família, essas pessoas têm pai, têm mãe, têm filho, têm filha, têm amigo, têm amor…”

Se colocarmos esses dizeres numa relação de contraponto com o que já vimos até aqui como construção discursiva do referente

100.000,     numa     multiplicidade      de     posições-sujeito     em funcionamento, temos o seguinte quadro:

Na tabela, à direita, temos as formulações do governo, que se filiam ao discurso de morte. O verso do poema entra aí como uma menção a esse discurso. À esquerda, temos formulações construídas em contraponto, que derivam para outra formação discursiva, pela construção de paráfrases, colocando em projeção sentidos outros, outros possíveis da Pandemia, a vida como o possível.

Em Análise de Discurso compreendemos que “todo funcionamento da linguagem se assenta na tensão entre processos parafrásticos e polissêmicos” (ORLANDI, 1999, p. 36). A paráfrase, como diz Orlandi, é a matriz do sentido, a partir da qual garantimos a possibilidade do sentido pela repetição de um já sabido; e a polissemia, é a fonte da linguagem, a partir da qual o sentido pode ser distinto num mesmo objeto simbólico, como por exemplo, 100.000, objeto simbólico que mantém simultaneamente o sentido da invisibilidade do sujeito, do aniquilamento da vida por um efeito de neutralidade (é só um número) e o sentido da vida em sua potência histórica, pelo legado, pela memória (não é só um número). Paráfrase e polissemia “são duas forças que trabalham continuamente o dizer”. Dizemos porque já sabemos, como palavras já ditas (paráfrase) e também porque queremos deslocar esses mesmos sentidos já sabidos (polissemia).

É por isso que no embate das discursividades – o que chamamos o político no discurso – pela arte como formulação, a vida resiste, insistindo em ser prosa, verso e música, apesar de quererem a todo custo que ela seja apenas número.

Segundo movimento: a Memória como Arquivo

A Análise de Discurso não trabalha com o dado, mas com o fato de linguagem (ORLANDI, 1998). Isso significa que trabalhamos com os processos de linguagem e não com seus produtos. É assim que, uma análise discursiva não considera

100.000 como um dado, nem quantitativo (o número), nem qualitativo (a informação). 100.000 interessa enquanto “fato- linguagem”, enquanto um acontecimento que instaura sentidos, modos de formulação da Pandemia. Como vimos até agora, um deles é o dos corpos que não importam. Que são número, mas não contam para a sociedade, para o sistema capitalista. O outro é o dos corpos que contam, que têm nome, prosa e poesia.

Voltemos ao início dessa empreitada, quando afirmei, com Orlandi (2009), que, no digital, a quantidade é estruturante. Sim, a quantidade enquanto dado, no digital, é um fato de linguagem que estrutura os dizeres. Mostrei até agora, buscando desconstruir o sentido do número como dado, para construí-lo com um fato, um acontecimento discursivo, capaz de instaurar outro domínio de memória da Pandemia, que um número significa, que a quantidade significa segundo um discurso x ou y. Um número pode significar um sujeito, a potência de uma vida, mas pode também significar “apenas número”, “apenas vida”.

Daqui em diante, nesse segundo movimento de análise, me dedicarei a construir o sentido do dado como fato, como acontecimento que estrutura os dizeres, mas, com a diferença de que a quantidade importa para que o sujeito tenha visibilidade. A quantidade aqui funciona como estruturante do visível. Na análise dos 100.000 a quantidade dilui, apaga o sujeito numa massa anônima

de normalidade, invisibilizando-o; na análise a seguir, a quantidade é aquilo que vai construir a própria visibilidade do sujeito.

Se até aqui propus a análise de um processo de construção discursiva do referente numérico 100.000 como corpos inumeráveis, que não contam por serem números, mas contam porque importam, proporei agora a análise de um processo de construção discursiva do referente “milhares” como corpos numeráveis, aqueles que importam porque contam.

Perfil do Instagram da Campanha @paradanofeed

Todos os anos, desde 1997, acontece na Avenida Paulista, sempre no mês de junho, a Parada do Orgulho LGBT+. O evento reúne milhares de pessoas. Esse ano, em função da Pandemia de Coronavírus, a Parada se reinventou, produzindo outras formas de visibilidade e reivindicação. Sendo realizada online, com shows, performances e debates, trouxe para a pauta o tema “Democracia”.

Captura de tela da página do Mercado Livre no Facebook

Fonte: https://www.facebook.com/MercadoLivre.

Embora a parada não tenha ido às ruas, o Mercado Livre, um dos apoiadores do evento online, promoveu uma campanha no Instagram, pelo perfil @paradanofeed, para que as pessoas que quisessem levar o seu orgulho à Paulista deixassem um comentário no perfil, autorizando o Mercado Livre a utilizar seu nome no Instagram da parada e num videoclipe da artista Gloria Groove.

Captura das telas do regulamento do perfil @paradanofeed

Desse modo, “milhares foram à Paulista”. Nas capturas de telas do vídeoclipe Gloriosa, abaixo, podemos ver que os nomes de perfis nos balões coloridos formam a quantidade que representa a comunidade LGBTQIA+ a partir dos comentários na foto do Instagram.

Captura de telas do vídeo Gloriosa no YouTube

“Esse ano a parada LGBTQIA+ não foi para a rua, foi para o Instagram” e a Paulista ficou lotada, mesmo com a Pandemia.

Como tenho trabalhado em minhas pesquisas, com o digital: “O irrealizado do movimento popular”, como diria Pêcheux (1990), irrompe no mundo contemporâneo pelos movimentos da cidade. A cidade se movimenta para além das vias destinadas aos deslocamentos dos sujeitos. As linhas de demarcação entre a rede e a rua, o Instagram e o prédio público, são esgarçadas por uma massa de sujeitos que avança sobre a tinta branca da faixa de segurança, ultrapassam a tinta amarela contínua que sinaliza a organização do movimento, desorganizando a cidade simétrica, utópica e governável. Produzindo outros espaços, espaços desierarquizados. (DIAS, 2018)

Mas não são também esses espaços governáveis?

Os nomes invadem as ruas. Ao contrário dos mortos pela Covid-19, onde os nomes são apagados, aqui, não são apenas números, são sujeitos com seus nomes (perfis) ocupando os espaços da cidade apesar dos números que nos levaram ao distanciamento social. São sujeitos levantando suas vozes apesar da falta de políticas públicas e sociais, produzindo movimentos que esticam o tecido da cidade, até, quem sabe, esgarçá-lo, produzindo porosidades capazes de rupturas.

Numa espacialidade não geográfica, tecida pelos dados dos sujeitos (nomes de perfil), as cores da bandeira LGBT+ se estendem na Paulista, como o manto preto no apartamento de Bruna Lessa, reivindicando visibilidade. O corpo do sujeito e o corpo da cidade se separam e se constituem por fragmentos e virtualidades, numa espacialidade outra, numa outra discursividade. Na mobilidade rarefeita9, predomina a velocidade, a explosão dos sentidos, a debandada. “Sentidos em fuga”, no dizer de Orlandi (2012), ou seja, sentidos em polissemia… em pandemia.

A possibilidade de realização desses movimentos digitais é um importante traço dos efeitos das tecnologias digitais e, com elas, do uso de plataformas sociais que permitem a produção de um corpo social a princípio, atomizado, mas capaz de unidade. Segundo Díaz (2012. p. 13),

as ‘redes sociais’, que da perspectiva do espetáculo aparecem como o fim em si mesmo da vida humana, são transformadas pelas revoltas em um meio que conduz finalmente à praça. O território da praça é, desta perspectiva, o lugar que nenhum poder pode reduzir a vida a uma via nua.

Mais do que a praça, eu diria, o espaço público, onde a vida na cidade assume a forma do comum. Esse comum que foi engolido pelo capital e pelo utilitarismo dos espaços, mas também pela capitalização da própria vida. “Assumir a tarefa de pensar num novo uso [sentido] do comum é, nesse sentido, o desafio político que deve assumir nossa geração e as que virão”11 (DÍAZ, 2012, p. 16).

Desse modo, o que está em jogo nessa análise é o modo como numa sociedade do digital, conectada, as lutas empreendidas por emancipação, reivindicações ou direitos sociais se organizam na mesma relação de urgência e velocidade das redes digitais, de  maneira ubíqua e atravessada por uma relação contraditória entre o arquivo com memória, aquele que desorganiza uma certa injunção a percursos determinados de leitura ou o modo como querem que a sociedade leia os números, e a memória como arquivo, aquela que organiza uma certa injunção a percursos algoritmizados de arquivo ou o quê querem que o sujeito leia.

Por fim…

Meu objetivo com esse texto foi apresentar distintos processos de significação da Pandemia de Coronavírus. Mostrar os diferentes efeitos de sentido dos números na Pandemia.. O efeito da indistinção da vida, da deshumanização da vida, por um lado, e o efeito do engajamento, da união, da solidariedade por uma causa, por outro lado. Diferentes formas de resistência ao discurso da invisibilidade, do aniquilamento das identidades. Distintos modos de enunciar os corpos que contam. Distintas formas de relação com o arquivo e com a memória. Outra forma de constituição do sujeito, que tenho chamado “sujeito de dados”.

O “sujeito de dados” é o sujeito que conta enquanto um dado rastreável, é um corpo que importa porque é passível de controle. No digital, portanto, uma vez tornado dado, o sujeito importa ao

“Estado algorítmico” (MOROZOV, 2018), aquele que exerce uma regulação dos sujeitos por meio de dispositivos inteligentes. Mas e o que não pode ser medido ou regulado por sensores/rastreadores? Fica invisível. Assim, podemos contar o número de mortos, mas invisibilizamos as vidas, as dores, as faltas, as injustiças, a falta de acesso, a negligência… Como diz Morozov (2018).

o diabo não usa dados. É muito mais difícil monitorar as injustiças sociais do que a vida cotidiana dos indivíduos submetidos a elas. Ao desviar o enfoque regulador, a regulação algorítmica nos oferece a boa e velha utopia tecnocrática da política apolítica. Desacordo e conflito, sob esse modelo, são vistos como subprodutos lamentáveis da era analógica – a serem eliminados por meio da coleta de dados -, e não como consequências inevitáveis de conflitos econômicos ou ideológicos. (MOROZOV, 2018, p. 91-92)

Por isso, a importância de pensar o dado como um fato de linguagem. Como tenho dito, “não é a organização da linguagem pelo algoritmo que interessa, mas a ordem do discurso, cuja textualização é algorítmica.” (DIAS, 2018, p. 62)

Segundo Robin (2016, p. 425) “Hoje, uma nova utopia se instalou; trata-se da utopia do armazenamento de tudo, sem perda, sem resíduo, utopia que as novas tecnologias tornam ‘pensável’ na falta de ‘possível’.” Qual é, hoje, o possível da vida? A arte, talvez… porque, como mostra Débora Diniz em Reliquia.rum, a arte não se explica:

Arte não se explica. Na ousadia de palavrear o que se vê, uma tentativa de oferecer mais palavras ao luto

Referências

DIAS, Cristiane. Análise do discurso digital: sujeito, espaço, memória e arquivo. Campinas: Pontes, 2018.

      . A materialidade digital da mobilidade urbana: espaço, tecnologia e discurso. Revista Línguas e Instrumentos Linguísticos. n. 37. Jan./jun. 2016. p. 157-175. Disponível em: http://www.revistalinguas.com/edicao37/edicao37.html.

DÍAZ, Maurício Amar. Los movimentos sociales: notas para repensar la acción política. In. Actuel Marx/Intervenciones n. 13. Movimientos sociales, populares y sindicales, Santiago: LOM ediciones, 2012, p. 7-16.

FERRAGUT, Guilherme. Sentidos em circulação pelo digital:

Justiça e Polícia e seus efeitos na

sociedade. – Campinas, SP. Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, 2018. MOROZOV, Evgeny. A ascensão dos dados e a morte da política. Big Tech. São Paulo: Ubu Editora, 2018.

ORLANDI, Eni. Discurso em análise. Campinas: Pontes, 2012.

      . O que é linguística? 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 2009.

      . Análise do discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 1999.

      . Interpretação: autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1998.

      . As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. 3 ed. Campinas: Editora da Unicamp, 1995.

PÊCHEUX, Michel. Metáfora e interdiscurso. Trad. Eni P. Orlandi. In. ORLANDI, E. (org.) Análise de Discurso: Michel Pêcheux. Textos selecionados. Campinas: Pontes, 2011. p. 151-161.

      . Delimitações, inversões, deslocamentos. Trad. José Horta Nunes. Cadernos De Estudos Linguísticos, 19, 7-24, 1990. https://doi.org/10.20396/cel.v19i0.8636823

ROBIN, Régine. A memória saturada. Trad. Cristiane Dias e Greciely Costa. Campinas: Pontes, 2016.

Anúncios